por Aline Moura, repórter do Diário de Pernambuco
Conheci Caio César sábado passado, no Arruda, quando o céu inteiro chorava e quase dez mil tricolores foram ao estádio ver um amistoso. Foi amor à primeira vista. Ele estava na minha frente, num degrau abaixo do meu, vestindo uma capa de chuva imensa, quase o dobro do tamanho dele. Fiquei encantada com aquela cena. Aos 8 anos, Caio poderia estar em casa, sequinho, assistindo ao jogo contra o Vasco na televisão, ou até mesmo viajando na internet, como é costume da nova geração. Mas não. O menino estava bem ali, no frio, presenciando a pior fase do Santinha sem o menor traço de pessimismo. Tinha aquela esperança que só coração de criança carrega.Juro que senti um pouco de inveja. Na idade de Caio, eu brincava de princesa, de boneca, de escondeesconde… Nem sabia o que era futebol. Foi ai que comecei a olhar as crianças à minha volta, cada uma mais envolvida que a outra, como se aquele jogo valesse uma vida. Eram garotas e garotos. Caio estava entre eles, tenso e concentrado. E eu também. Só pensava nos meninos e meninas que torcem pelo Santa nos dias de hoje. Crianças que resistem à propaganda massacrante da TV e dos jornais a favor da “coisa”, que ignoram as brincadeiras dos amigos na escola numa fase que só é favorável à “imitação”. São como pipas com cerol. Vencem todos os adversários.Não sou mãe, nem sei se vou ser um dia. Mas o meu lado materno estava aflorado no último sábado. Quem eram essas crianças afinal? Minha mainha Santana, que é santacruzence, psicopedagoga e psicóloga explica que crianças corais são “resilientes”. Esse nome estrambólico, na Psicologia, retrata pessoas que possuem o dom da resistência, o que não é comum à maioria. São crianças com capacidade de combater, de enfrentar os obstáculos, de se manter íntegras à sua identidade independentemente do que o meio tenta lhe impor. São como crianças que nascem na favela, por exemplo, mas vencem na vida, apesar do apelo das drogas e da violência.Tudo muito bonito, no olhar da Psicologia, mas eu queria confirmar a tese com Caio. Não sabia que iria receber uma resposta tão invocada, como se estivesse fazendo a pergunta mais sem sentido do mundo.- “E você, Caio, torce pelo Santa desde quando?” – “Desde sempre”, respondeu o menino, meio brabo. “Desde que nasci torço pelo Santinha. Não ligo quando meus amigos tiram onda de mim. Eu tiro onda deles também. O que eu mais gosto do Santa é o estádio e o amor da torcida”, afirmou, incentivando-me a buscar mais respostas.Resolvi aprofundar a história e perguntar a outros meninos que estavam no amistoso, naquele feriadão, em baixo de chuva. Wesley Henrique, 12 anos, me chamou a atenção. Estava com frio, porém falava mais que o homem da cobra. Estava atrás de mim, com a avó Aldecir Gomes, 55 anos, sua companheira de campo desde que tinha 6 anos. Wesley estava molhado. Disse que não perde um jogo, sabe o nome dos jogadores e sabe explicar o que até hoje não entendo: esquema de jogo. “Eu gosto do Santa porque é um time que está na última divisão e não perde a raça, joga com vontade de ganhar”, opinou, numa confiança que só Deus sabe. Lindo, deu vontade de dar um monte de cheiro.Para não haver dúvidas sobre essa desconhecida “resiliência”, conversei com outro menino. Afinal, essa é a futura geração do Santinha, aquela que vai nos substituir. E eu queria saber como as crianças corais reagirão nessa longa jornada, com três anos pela frente de batalha no inferno. A resposta de Brennus César, 11 anos, não poderia ter sido mais resiliente. “É difícil explicar, mas eu amo tudo do Santa. Só vi meu time ser campeão uma vez, em 2005. Os meninos do colégio ficam tirando onda, dizendo que o ex-porti está na Liberadores e a gente está na série D. Mas e daí? Futebol é fase. Eu amo muito meu time, não é por isso que vou deixar de torcer. Quem ama mais do que a gente?”, perguntou Brennus. É claro, respondi.Satisfeita, completa, resiliente. As crianças do Santa são melhores do que contos de fadas.
Abraço a todos!!!
terça-feira, 11 de maio de 2010
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